O ébrio

Vicente CelestinoAntônio Vicente Felipe Celestino. Rio de Janeiro, 12/9/1894 - São Paulo, 23/8/1968
  (voz)

Orquestra Victor Brasileira
  (pianoforte, violini, viola, cello [violoncello], contrabaixo)

(Nasci artista, um cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome pouco a pouco foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória. Durante a minha trajetória artística tive vários amores. Todas elas juraram-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem d primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa. Um dia, quando eu cantava A força do destino, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho do seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar mas só por amor à minha filha. Eduquei, fez-se moça, bonita... E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez A força do destino, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Daí pra cá eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. Até que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, não! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me ébrio. Ébrio...)
Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer
Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou
Só nas tabernas é que encontro meu abrigo
Cada colega de infortúnio é um grande amigo
Que embora tenham como eu seus sofrimentos
Me aconselham e aliviam os meus tormentos
Já fui feliz e recebido com nobreza até
Nadava em ouro e tinha alcova de cetim
E a cada passo um grande amigo que depunha fé
E nos parentes... confiava, sim!
E hoje ao ver-me na miséria tudo vejo então
O falso lar que amava e que a chorar deixei
Cada parente, cada amigo, era um ladrão
Me abandonaram e roubaram o que amei
Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar
Quando eu morrer, em minha campa nenhuma inscrição
Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar
Este ébrio triste e este triste coração
Quero somente que na campa em que eu repousar
Os ébrios loucos como eu venham depositar
Os seus segredos ao meu derradeiro abrigo
E suas lágrimas de dor ao peito amigo


©  Mangione & Filhos.

Nota:
   Composição mais famosa de Vicente Celestino, foi também sua obra de maior sucesso. Desenvolvida "a partir de uma coisa que estava martelando a cabeça há muito tempo", como disse a sua esposa, a composição foi feita em 1935, contra a vontade de Gilda. Segundo ela, daria a impressão que Vicente Celestino, um abstêmio, começara a beber. Apesar dos inúmeros telefonemas a Gilda Abreu, cobrando "a ousadia de abandonar um homem como Vicente Celestino e levá-lo à bebida", a idéia geral não foi essa.
   Vicente Celestino estava no auge da fama e, com sua interpretação, a música alcançou retumbante sucesso. Levada depois ao teatro, converteu-se, em 1946, em filme, talvez o melhor, sucedido financeiramente e em popularidade na história do cinema brasileiro.
   Anterior a Coração materno, que por sinal utilizava os mesmos ingredientes teatralescos, O ébrio baseavase na fórmula triunfal que Carlos Gardel e Álfredo Le Pera desenvolviam desde os anos 30 na Argentina.
[Nova História da Música Popular Brasileira – Vicente Celestino , fascicolo + disco, Abril Cultural, seconda edizione, 1978]